x

Arnaldo Antunes é um poeta que pensa por escrito

Luís Augusto Fischer - Folha de S. Paulo - 06/11/2000

Sabe do que um poeta precisa? De linguagem. Precisa que seu modo peculiar de lidar com a língua seja aceito e reconhecido. Isso dá ao poeta um lugar nesse âmbito tão poderoso e imperceptível como a língua que nós usamos para comprar pão, amar, ler e escrever.

Esse parece ser o caso de Arnaldo Antunes. Embora ele nem seja velho, e nossa época não seja clara para a emergência de poesia, seu trabalho ganhou o coração de muita gente. E isso com uma singularidade que parece ser importante: Antunes se vale de várias modalidades artísticas, como a letra de música, a expressão plástica, a poesia impressa, a expressão corporal.

Agora ele acrescenta um item ao repertório, com o lançamento de "40 Escritos", reunião de textos pensados para jornal ou para apresentação de exposições de outros artistas. Antunes vem a público com o que se pode chamar de ensaios, textos que expressam diretamente o ponto de vista do cidadão por trás do artista.
O livro começa com uma saudação à chegada dos 80, portanto de 20 anos atrás, e acaba com outro de 1999, que comenta a obra de Nuno Ramos. Começa com um Antunes jovem roqueiro dos Titãs e acaba com o artista maduro, que já validou sua arte junto ao público.

Junto a algum público, é melhor dizer. Porque Antunes sempre se apresentou como um típico artista de vanguarda, o que significa dizer que se trata de um artista inconformado e disposto a comprar várias broncas, com seus instrumentos e com o destinatário de sua arte. Nisso, Antunes é um caso paulista, ou melhor, paulistano. São Paulo parece ter se especializado em fazer brotar artistas inquietos, insatisfeitos, insubmissos. De vez em quando, artistas como ele conseguem se fazer ouvir, mas outras vezes não - ficam falando apenas para seus próprios pares.

Arnaldo Antunes parece ter conseguido sair do círculo restrito. O que em parte se explica pelo uso do rock e da expressão visual plástica, bem diferentes da poesia impressa. De todo modo, esses 40 escritos confirmam a vocação de Antunes e nos dão um painel consistente da arte de vanguarda brasileira desses 20 anos.