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Sobre o tom, o sal e as mensagens

Folha de São Paulo, 04/05/86


O tom é o sal da mensagem.
É duro engolir uma comida sem sal.
Nada a ver com o tom no sentido técnico, usado na música (dó ré mi fá) ou na pintura (as diferentes tonalidades de uma cor). Estou falando de “tom” no sentido vulgar do termo. Quando se diz que algo tem um tom nobre, ou pesado, suave, ácido ou agressivo, ou foi dito em tom de brincadeira, ou parece algo muito antigo, ou soa com severidade, ou frieza, etc.
Ela disse que não aguentava mais ver a minha cara, num tom amistoso demais. O que isso significa?
A frase que eu digo não será a mesma frase se sair da sua boca. Ou se eu a disser dentro de outro período. Ou com outra ordem das palavras. Ou se houver uma trilha sonora ao fundo. Ou se mudarmos a trilha sonora. Ou se ela for escrita numa letra trêmula. Ou em tipo composto num jornal. Ou como letreiro de uma loja. Ou se dita só para testar o eco desta sala. Ou se for mentira. Ou se tiver uma platéia escutando.
Essas variações geram diferentes tons. Mas onde eles se localizam exatamente? Até que ponto são intencionais?
Contrabando de tons — Personagens de ficção científica falando como monges zen. O que chamam de pós-moderno?
A linguística e a filosofia da linguagem custaram a ver o contexto de enunciação como parte constituinte do discurso, e relevante em suas detonações de sentido. A situação, a voz que emite, o jeito como o texto é impresso. O discurso indissociável da sua práxis; impossível de ser estudado fora dela. A linguagem e seu uso — acima de significante e significado.
E as gramáticas normativas cairam no descrédito.
Claro que há mensagens mais ou menos transitivas em relação ao seu contexto. Mas a questão é que a tevê, o rádio, o discurso coloquial, os out-doors, a arte de vanguarda, o jornal, o gibi, os enganos telefônicos, a música pop e a vida moderna em geral — trouxeram consigo uma crise do sentido. Do mundo dicionarizado. Da correspondência unívoca entre uma palavra e aquilo que ela representa.
Essa crise não significa obscurecimento, ou ineficiência comunicativa. Apenas a clareza de uma mensagem depende agora, mais do que nunca, de um uso apropriado. Estamos mais perto de Zelig do que da incomunicabilidade.
É legal que algumas gírias possam dizer algo numa dada situação e dizer exatamente o oposto, em outra. Coisas como “Só!”, “Falou!”, “Qualquer coisa”, “Tudo bem”, “Podes crer” — têm positividade/negatividade relativas. Dependem inteiramente do uso. E aí eclodem os significados virtuais. O sentido substituido pela sugestão de sentidos. Paradoxalmente, isso não obscurece a mensagem. Não há ambiguidade no uso de uma gíria.
Há até expressões que podem ser empregadas em mais de uma função sintática, como “puta”, que cumpre não só o papel original de substantivo, como o de adjetivo (“Ganhei uma puta grana”, “Fizeram um puta som”), sendo também usada como interjeição (pode-se dizer “Puta!” como se diz “Oh!”).
Mensagens transparentes, como as que Humpty Dumpty usava. Só que funcionam perfeitamente no processo comunicativo. Alice compreenderia.
O “tom” diz respeito à linguagem em sua efetivação concreta, dentro de um contexto linguístico e situacional. Está presente não só nos elementos que compõem a mensagem em si (escolha das palavras, organização sintática), como no gesto que a acompanha, na intenção que lhe é dada, no papel em que foi impressa, no desejo de quem escuta. É como o cheiro, que habita tanto o objeto de onde provém, quanto o ar que o cerca.
Um livro não pode ser lido da mesma maneira em sua primeira e em sua quinquagésima edição. O cheiro é diferente.
É duro engolir uma comida sem cheiro.
A crise do sentido é também uma crise da verdade. Um fato é a intersecção entre suas versões, ou apenas uma delas? Ou nenhuma delas? Entender e sentir são sinônimos? Para meio entendedor boa palavra basta?
Mix, Jones, Jobim, Sawer, Waits.
Tons.