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Sentidos em todos os sentidos

ornal Nexo, junho de 1988

Para quem faz rock nos anos 80, está acabando esse papo de vestir uma canção com a roupa do arranjo. Cada vez mais, o som que se toca pertence ao canto que se canta. A estrutura “canção” foi abalada por uma maior proximidade entre criação e execução. Em diversas bandas, as músicas são feitas em cima de um som que já está sendo tocado. Já não se diz “vamos interpretar uma música”, mas sim “vamos fazer um som”.
A crise da canção tem diferentes sintomas. A incorporação do berro e da fala ao canto; o estabelecimento de novas relações entre melodia e harmonia; o reprocessamento e colagem de sons já gravados; os ruídos, sujeira, microfonias; as novas concepções de mixagem, onde o canto nem sempre é posto em primeiro plano, tornando-se, em alguns casos, apenas parcialmente compreensível; a própria mesa de mixagem passando a ser usada quase como um instrumento a ser tocado. Tudo isso altera a concepção de uma letra entoada por uma melodia, sustentada por uma cama rítmica-harmônica. O sentido das letras depende cada vez mais do contexto sonoro.
Essa totalidade que o rock vem impondo, entre o que se consideraria “canção” e “acompanhamento”, se amplifica na relação entre o som e as manifestações que o cercam. O rock (considerado no sentido mais amplo do termo) não é música para ser apenas ouvida. É música associada a dança, cena, atitude, performance, comportamento.
Hendrix punha fogo na guitarra. Esse fogo está lá, no vinil.
Em uma das peças de Home of the Brave, Laurie Anderson instalou terminais de bateria eletrônica em diversas partes do corpo (calcanhares, joelhos, pulsos, cotovelos). Ao dançar, tocava esses pontos e produzia, com a própria dança, o som que a fazia dançar. Laurie Anderson inserindo no universo pop um procedimento cageano.
Essa soma de linguagens não nos é estranha. A música, aqui, está apenas cumprindo sua adequação a uma época em que os laços entre os sentidos estão sendo reatados.
Estranho paradoxo: A mesma era das especializações, que radicalizou as divisórias na produção, gerou, no campo das artes, a interação simultânea de códigos. Surgiram o cinema, a TV, a arte ambiental, os happenings e performances, ready-mades, poema-objetos, holografias. Na música pop, surgiram os clips. Nos estudos de linguagem, a semiótica. Simultaneidade de sentidos. Assobiar chupando cana.
O rock, assim como as manifestações artísticas que efetivam a interação de códigos, parece nos remeter, dentro do mundo tecnologizado, a um estado mais primitivo. Como nas tribos, onde a música, associada à dança, cumpre sempre uma função vital — religiosa, curativa, guerreira, de iniciação ou para chamar chuva.
Essa inocência já foi perdida (o tempo do homem criou a música para ser ouvida, as artes plásticas para serem vistas, a arte para representar a vida). Mas temos outras.
Hendrix punha fogo na guitarra.
Esse fogo está solto.