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A realidade também emburrece

Folha de São Paulo, 28/10/85

Notícias Populares, 18/06/85: “Titãs acusam TV de burrificar as pessoas em seu novo disco”.
O poeta Waly Salomão, no release desse disco: “ ... acontece que os Titãs são inteligentes, irônicos demais para encamparem a visão do fenômeno televisivo como encarnação do mal, a televisão enquanto Hidra de Lerna eletrônica”.
Um jornal publicou, a partir do release: “... é uma visão do fenômeno televisivo como encarnação do mal, à base de muito humor...” . Acontece. Há quem ouça mal e há quem entenda mal o que ouve.
Mas normalmente os burros tentam esconder a própria burrice — o que os diferencia dos chatos, que ostentam inevitavelmente a sua condição — seja na TV, nas páginas dos jornais ou na convivência diária.
A burrice cantada na primeira pessoa é, ao menos, diferente.
Tudo bem. “Televisão” (a música) soa claramente nas FMs, com sua burrice = anti-imunidade. Agora eu quero falar mais da Televisão (o aparelho), e desse preconceito-preservativo que a encara como o Monstro da Massificação.
Uma vez eu estava assistindo uma dessas novelas rurais da Globo, do horário das seis, na tevê coletiva de uma fazenda. Um dos colonos comentou que não gostava desse tipo de novela, porque caipira ele já estava cansado de ver ali todo dia. Ele gostava, sim, de novela que mostra as pessoas ricas da cidade. Já outros curtiam se identificar com os caipiras da novela. Outros, outras coisas.
A atração pela diferença, a busca de identidade, a indiferença, são apenas algumas das formas de se relacionar com a televisão. O cara que desliga a TV e sobe para o quarto de dormir não pode ver do mesmo jeito que o cara que acolhe a TV em seu quarto e dorme com ela ligada. Mas, na pior cegueira, todos os gatos são pardos. Titãs e Dominó.
A crítica da televisão que monstrifica o seu aspecto massificante exclui um elemento fundamental do processo, que é o telespectador. Se não exclui, menospreza sua capacidade de manipular o aparelho.
O cuidado em não se promiscuir com os raios catódico-emburrecedores é gerado pela preguiça de cavar uma maneira própria de se relacionar com o objeto. Mais cômodo é afastar qualquer possibilidade de contaminação. Mais asséptico. As pessoas se preservam do risco de envolvimento com a mediocridade televisada para repetirem a mediocridade universitária. Não podem apreciar a vertigem de um anúncio de sabonete, a graça patética de uma imagem da novela sem o som, ou a perda de tempo (Sombra Monstruosa do Monstro) de assistir um desenho animado em pleno horário comercial da segunda-feira.
Sabe-se que a televisão trabalha com a repetição de formas já assimiladas, com padrões estáveis e um baixo grau de novidade ou estranhamento. O tratamento da linguagem que exige um esforço de compreensão formal um pouco maior, para a comunicação de massa, é ineficiente. A renovação técnica é uma exigência constante, mas a linguagem tartarugueia (quando não carangueja). Se por um lado isso rebaixa seu valor criativo, por outro há a vantagem da televisão se tornar um objeto totalmente incorporado ao cotidiano — como uma janela.
Você olha a janela todo dia. O que você aprende do que o seu olho apreende? Do que a sua antena capta, o que você captura?
Um exercício interessante: inverter o atrativo da televisão. Assistir qualquer coisa tentando não compreender nada. Você vê as cenas, a sequência das cenas, as pessoas, o que as pessoas fazem; ouve as vozes, a música, os ruídos. Mas você não entende o que está acontecendo ali. Cria uma estranheza, uma dificuldade intencional de seguir aquilo que se quer mostrar. Olhe por um momento a cara da sua mãe procurando não reconhecê-la.
Outro: ver televisão, apenas. Ver televisão com os olhos puros, entregando-se à sua banalidade. Esse exercício funciona como um aprimoramento da facilidade, da tolerância, da maleabilidade da mente e do espírito. Aula de culinária às onze da manhã.
Muita gente faz coisas escutando música. Pode-se também fazer coisas vendo televisão. Ela fica ligada enquanto você faz outra coisa qualquer. Às vezes você olha para ela e se desconcentra daquilo que estava fazendo.
Com o advento do controle remoto, inauguraram-se novas possibilidades de brincar com a televisão. A simultaneidade dos canais se tornou mais tentadora. As interrupções, mais frequentes. Flashes.
Eu quero é mais: tevês de bolso, tevês descartáveis, telas circulares, novas possibilidades de alteração da imagem e do som, maior número de emissoras, programação constante sem interrupção de madrugada, salas com muitos aparelhos, para ligá-los ao mesmo tempo em canais diferentes — como em O Homem Que Caiu na Terra, ou como os mendigos que assistem as pilhas de televisores ligados nas vitrines das lojas.
A televisão ensina muitas coisas; até mesmo no telecurso.
Não adianta conversar com a sua avó sobre os novos modelos de computador. Você vai ter que falar de outras coisas (ou falar de outro jeito sobre os computadores). Se você não se permite isso, vai ficar conversando só com o pessoal da IBM. Ou com os próprios computadores.
Agora você pode querer aprender outras coisas. Você olha a janela para quê?