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O poeta roqueiro revela-se crítico de artes

Amador Ribeiro Neto - Publicada em "Dois-Idéias" sup - 31/12/2000

Muita gente refere-se a Arnaldo Antunes como poeta concreto. De fato ele o é. Mas é mais do que isto: compositor, cantor, performático, artista plástico, Arnaldo acaba de se inventar também crítico de artes e de literatura. Seu mais recente livro, "40 Escritos", organizado por João Bandeira, reúne textos críticos escritos pelo roqueiro nos últimos vinte anos.

Os textos são: releases de discos: Paralamas, Péricles Cavalcanti, Lenine, Arnaldo Baptista, Dorival Caymmi, Titãs.

Prefácio de livros: "Desorientais" livro de hai-kais de Alice Ruis, "Todas as Letras", livro de Gilberto Gil, organizado por Carlos Rennó, "Era tudo sexo", de Mônica Rodrigues Costa, "Winterverno", de Paulo Leminski e João Virmond, "Rente", livro de poesias de João Bandeira, "Imagem Escrita", livro de Nuno Ramos, "ABZ do Rock Brasileiro", de Marcelo Dolabela.

Apresentação em catálogo de exposições de artes plásticas: "Tantra Coisa", de Aguilar, "Chuva", de Fernado Zarif, "Casulo", de Edith Derdyk, "Isso", de Tunga, "Olhar do Artista", em que ele mesmo foi o curador da exposição.

Colaborações em revistas e jornais literários: Nicolau, Reflexo, Suplemento Literário de Minas Gerais, Nexo, Almanak 80, suplementos Folhinha, Folhetim e Mais!, da Folha de São Paulo.

Além de artigos publicados na Folha de São Paulo, no Jornal do Brasil, nas revistas Globosat, Casa Vogue.

Valendo-se de uma fina formação semiótica, Arnaldo desvela instalações plásticas, canções, poesias, preconceitos institucionalizados, noções de linguagem televisiva, teoria da poesia, prosa, etc. Ao terminarmos a leitura de "40 Escritos" nos sentimos mais inteligentes e nos damos conta do talento de Arnaldo Antunes para a crítica de artes e de literatura. O curioso é que ele declarou ao jornal O Estado de São Paulo: "Eu não tenho o desejo de ser um teórico, mas um criador agindo como se fosse um clandestino na área ensaística". Modéstia que se estende à dúvida dele quanto à reunião destes textos sob a forma de livro: "Será que a grandeza dos textos não está justamente no destino efêmero que eles têm nos meios circunstanciais como jornais, revistas, releases?"

Nossa resposta, após leitura e releitura do livro é negativa. A capacidade de reflexão de AA é esclarecedora e inquietante. Esclarecedora do objeto analisado, sempre visto por uma angulação reveladora de, ao menos, um toque especial da obra criticada. Inquietante porque nos sentimos provocados a seguir lendo objetos e signos com mais verticalidade, com menos pressa, com menos ânsia de aplicar conceitos teóricos estabelecidos, quer pela tradição, quer pela contemporaneidade.

AA vale-se, como adiantei acima, de toda uma bagagem semiótica que vê, lê e toca a obra a partir de interações inter e intra sígnicas, inter e intra códigos de linguagem. Assim, surpreende, encanta e esclarece a abordagem que ele faz, por ex., da instalação plástica "Chuva", de Fernado Zarif. Relacionando o figurativo e o abstrato, a matéria sólida e a matéria volátil, o cinema e o desenho, a palavra e o silêncio, a música e o ruído, a filosofia e a semiótica, a ironia e o sagrado, o pincel e o vento, AA faz-nos perceber que a arte conceitual, por ex., é construída sobre bases bem pensadas e bem transadas sobre uma matéria muitas vezes frágil e efêmera, mas duradoura no impacto que exerce sobre o público ao desisntalá-lo (corpo e alma) face a ela.

Quando discorre sobre poesia, revela conhecimentos teóricos das mais variadas fontes. Protestando contra a análise de seu poema "verme/derme", feita por Régis Bonvicino, AA mergulha no cerne da abordagem sem descuidar das vacilações venenosas do jornalista, travestidas de inocência, como neste trecho em que cita o jornalista: "Pra cada João Cabral há um Carlos Nejar etc. Não se está querendo dizer que Antunes é um Nejar (...)". A seguir Arnaldo indaga com veemente inteligência: "Se não se está querendo dizer o que se está dizendo, então por que se diz?"

Ao abordar o disco "Canções" de Péricles Cavalcanti, aproveita a dica das músicas e do título para, num único parágrafo, colocar questões essenciais na eterna discussão entre letra de música e poesia. Pontua Arnaldo: "Uma canção não é uma letra entoada. Uma canção não é uma melodia que diz. Uma canção é algo que ocorre entre verbo e som, sem privilegiar nenhum deles. Ante uma canção de verdade, qualquer comentário crítico que separa letra e música parece patético. A canção não é um código composto pela junção de dois códigos primários, pois sua origem conjunta é anterior a essa divisão. A palavra cantada antecede a poesia falada ou escrita, a música instrumental, os frutos especializados do tempo do homem".

Construção e desconstrução são dois dos vários movimentos que movem este livro. Livro que já nasce indispensável para todos os que se interessam por artes e literatura. Mais que isto: para todos aqueles que curtem um texto escrito com habilidade, garra, razão e emoção. Um texto esclarecedor sobre as artes de nosso tempo.