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Jogos de simultaneidade

Silviano Santiago - Folha de S.Paulo - 05/10/1997

Arnaldo Antunes interpreta em excesso em '2 ou + Corpos no Mesmo Espaço'

O século que acaba daqui a três anos, ao contrário do anterior, foi bem pouco literário. As vanguardas européias, hoje adjetivadas por históricas, surgiram como decorrência da descoberta pela palavra dos valores introduzidos pela máquina na cultura cotidiana. Foram também consequência da imitação estilística de formas artísticas que se expressavam por imagem no espaço ou imagem em movimento, pela velocidade e pela simultaneidade. Se tomada de modo abrangente, a cultura brasileira é também bem pouco literária. No nosso país, a literatura sempre foi prato secundário no banquete das artes. Um velho exemplo. Machado de Assis (ou Mário de Andrade ou Guimarães Rosa ou Clarice Lispector) é mais falado do que lido. Um novo exemplo. Paulo Coelho (ou Erico Verissimo ou Jorge Amado) é mais lido do que falado. Quem é lido não alimenta; quem é principalmente falado também não alimenta.
Não sendo um século literário, a dominante artística durante a sua primeira metade foi cinematográfica. A sétima arte, através do ''grand finale'' hollywoodiano, deu o tom planetário às demais. Na segunda metade, a televisão substitui o cinema e abre espaço inédito para o domínio da música popular. ''Rock and roll'' é feito para e consumido pelas massas televisivas. Não sendo o século nem a nossa cultura literários, a via de acesso do jovem brasileiro à grande literatura foi sempre ''mediatizada'' por uma dessas formas artísticas dominantes e pelas grandes obras literárias estrangeiras.
No caso da minha geração, entrávamos na casa da literatura pela porta do cineclube e da cultura francesa. Tudo tinha a ver com imagem e montagem, tudo tinha a ver com a Europa. No caso da geração literária de Arnaldo Antunes (de que já fazem parte o cantor/compositor Chico Buarque e futuramente Caetano Veloso), entra-se na casa da literatura pela porta da música popular e da cultura norte-americana.
Décadas atrás, muito discutimos não só a relação entre literatura e cinema, entre literatura e imagem, como a teoria da dependência cultural de que é exemplo maior a antropofagia oswaldiana. Desde ontem e hoje, discute-se com paixão se letra de música popular é poesia e se somos ou não apêndice musical dos ''States''. Deve-se buscar também inverter o jogo político de dependência cultural proposta pela segunda metade do século. Saber até que ponto a música popular (e por ricochete a poesia dela derivada) é o tão desejado produto brasileiro de exportação, apenas sonhado por oswaldianos e concretos. Desde a jazzística bossa-nova, a MPB tem garantido a nossa presença artística no cenário globalizado.
Arnaldo Antunes, na medida em que discípulo confesso dos concretos, em particular dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos, na medida em que entrou na literatura pela porta da música popular, se apresenta com o recente ''2 ou + Corpos no Mesmo Espaço'' com um pé na velha geração cinematográfica e o outro na nova geração musical.
Os poemas de Arnaldo são caracteristicamente informados pela ''mise en page'' típica dos poetas amantes de imagem, esses que compõem as páginas brancas com requintes só encontrados em sofisticados objetos gráficos. Apesar de ser escrito por autor jovem, o livro tem dívidas impagáveis para com as vanguardas históricas, que não desmerecem, mas ameaçam qualquer proposta de autenticidade experimental na década de 90. O paradoxo levantado por Octavio Paz em ''Os Filhos do Barro'', ao teorizar sobre uma "tradição da ruptura" (ênfase na palavra tradição) no momento em que, ainda segundo ele, as vanguardas históricas chegavam ao seu ocaso, pode ser rico elemento descritivo de parte do projeto de Arnaldo.
O livro ''2 ou +'' se faz acompanhar de um CD de mesmo título que salienta a hibridez, ou a indeterminação, do objeto que o leitor tem em mãos. Entre o livro e o CD, este apenas com menor número de poemas do que aquele, a voz complementa a grafia, o ouvido complementa o olho. Retirando do leitor comum a linearidade da leitura pouco profissional e tecnicamente menos exigente, Arnaldo Antunes entrega-a a si mesmo, leitor profissional e músico, a fim de nos transportar para a babel dos jogos de simultaneidade (dois ou mais corpos no mesmo espaço). Trabalhados ou sugeridos nos textos do livro, esses jogos só são conseguidos, em última instância, com voz educada e aparatos ultramodernos de gravação e reprodução. Em termos clássicos, o poema é uma partitura, o poeta, seu melhor intérprete. A partitura é insuficiente para o leitor comum. A sua interpretação pelo autor lhe é excessiva.
Em poetas surrealistas como Robert Desnos, ou em artistas plásticos como Marcel Duchamp, o jogo entre escrito e falado é menos parafrástico e é de total responsabilidade da memória do leitor. Funciona como um jogo de diferenças que apontam para suplementos de leitura (e não para complementos). Desconstrói-se a clássica questão autoral, por exemplo, para deixar que a leitura seja também de autor. O mais democrático jogo surrealista apontava para uma leitura irônica de textos canônicos da cultura ocidental.
Dois exemplos rápidos. Em poema de Desnos, onde se lê com rapidez "D'aile ivrez-nous du mal" (Com uma penada, embebedai-nos com o mal), sugere-se ao leitor que abra o próprio ouvido interior para escutar uma linha do Padre-nosso, "Delivrez-nous du mal" (Livrai-nos do mal). No nome do belíssimo personagem feminino, personalizado em foto pelo próprio Duchamp, "Rrose Sélavy", sugere-se que o leitor escute o velho refrão do topos "colligo rosae", "Rose, c'est la vie".
Na complementar, correta e nada surrealista leitura-guia que Arnaldo faz no CD vê-se nitidamente um traço de proposta multimediática para a poesia, mas ainda e sobretudo constata-se um traço típico da vanguarda construtivista no século 20. O poeta, por meio de exemplos, é um zeloso pai do filho-texto, para retomar o conceito platônico e fonocêntrico, desconstruído por Jacques Derrida em ''A Farmácia de Platão''.
Arnaldo Antunes quer ensinar a todo e qualquer leitor o modo correto de leitura dos próprios poemas. Na pós-modernidade, a vanguarda construtivista substitui o arcaico manifesto pelo novo CD. Continua difícil falar da tão almejada democratização da leitura, pregada hoje tanto pelos defensores da cidadania quanto pelo educadores que lutam por um maior número de bibliotecas públicas bem equipadas.
A graça e o luxo do experimentalismo em poesia, constatamos uma vez mais ao ler-e-ouvir o livro-e-disco de Arnaldo Antunes, são sempre uma manifestação das audácias e idiossincrasias do pensamento adolescente (usamos pensamento no sentido em que Lévi-Strauss o utiliza no conceito de pensamento selvagem). Manifestação do adolescente que odeia e rejeita convenções e regras, que elege e erige a liberdade e a alegria do fazer (e não do exprimir-se) como valores puros, últimos e supremos da arte. Do adolescente que, por rejeitar indiscriminadamente o passado (a não ser aquela nesga de passado que lhe serve de espelho), nutre-se do assombro da descoberta, figura esta tão bem trabalhada nos escritos teóricos e nos poemas de Oswald de Andrade.
Um exemplo preciso e rasteiro no livro que estamos lendo? Em livro tão experimental, como o poeta pode ter-se emocionado e se motivado com duas epígrafes lugares-comuns, como a inscrição gravada no portal do inferno ("Lasciate ogni speranza voi ch'entrate"), ou o verso de Gertrude Stein ("a rose is a rose is a rose")? Assombra e encanta ver, neste último poema, intitulado "gertrudiana", como o fundo negro de rosas, rebatido objeto kitsch, se deixa grafitar novamente pelo aluno de poesia. Ele faz as quatro letras de ''rose'' transmigrarem para as quatro de zero.
Outro exemplo, agora paradigmático? Assombra e encanta encontrar quase no meio do livro, à página 53, o poema visual "exclamação", elaborações antropomórficas nada sutis (cada mão tem quatro dedos) em torno do próprio sinal gráfico (!), avantajado na página. O pensamento adolescente descobre Vida & Arte por meio de exclamações antropomorfizadas. Na página anterior (52), lê-se o poema "dúvida". O poema diz _em nossa pobre paráfrase_ que o preço da dúvida é a descrença que não é desprezo por, mas inveja de quem tem certeza. O assombro adolescente é dúvida e é instigante inveja de quem tem certeza. Em contraposição, o preço da crítica é a descrença que não é desprezo por, mas inveja de quem ainda descobre assombrado o mundo, a própria vida e a arte.

Silviano Santiago é escritor, poeta e crítico de literatura, autor de ''Em Liberdade'' e ''Keith Jarret no Blue Note'' (Rocco), entre outros.