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Resenha

Charles A. Perrone - 1996

Este belo volume de cinqüenta e quatro itens – poemas, títulos, peças – ou cinqüenta e cinco se contarmos a capa. Arnaldo produz uma poesia diversa de homo faber, homo ludens, homo sapiens, indo de uma orientação netamente visual a colocações líricas, desde um discurso de intuição infantil (oswaldiana) com uma evidente maravilha perante a descoberta, até uma agressividade artística de um não-inocente completo, cidadão do mundo que contempla e adultera a matéria. De anagramático, caligráfico, epigramático, alusivo, assinalativo, enumerativo, trocadilhesco, bastante há aqui. Os textos estruturam-se muitas vezes pelo substantivo, e as possibilidades de coincidência verbal são regularmente exploradas e aproveitadas. Além da função poética da linguagem instrumentaliza a fática também. A preocupação pela “outredade”, “abrange, em termos materiais, até o tátil (através, por exemplo, de fotografias de enormes colagens). Se há uma forte dose do não-representacional, do indeterminado, fora da esfera estrita da semântica, há também desenrolamentos de palavras que fluem dentro de paradigmas determinados (o solar, o animal, o corporeal, os líquidos expelidos do corpo), ou séries de palavras carregadas de sentido e/ou ideais mas puxadas por sensações formais e não por algum intuito discursivo sentimental ou ideológico. Mesmo assim a experiência não deixa de estar; quer-se encarar o outro, tentar compreender algo de si, contemplar a dialética fixo-fluxo (cf. o poema “rio”: rio: o ir e na página ao lado uma versão gráfica com Rs e Is concêntricos ao redor de um O). O efeito chamado pelos formalistas russos de estranhamento (em inglês batizado defamiliarization) é trabalhado de diversos modos por Arnaldo. Se, como é de se esperar, impera a ausência do eu em peças visuais, certos poemas com acentuados traços gráficos chegam a ter uma aura “lírica”, e uma persona está perfeitamente presente noutros. E se o autor não visa normalmente a criação de um mood lírico (de falante, voz poética), cria sim algum mood (impessoal) estético de estranhamento, de defamiliarização.
O compact disc que vem acoplado ao livro contém treze faixas que variam de: 08 a quase 4:00 min (total de 15:03 min). Curiosamente, alguns dos textos oralizados são os mais visuais e não os mais versificados. As faixas do CD estão seqüenciadas autonomamente, não seguindo a ordem em que aparecem no livro. Com isto, o CD (embora seja proibida a comercialização separada) pode ser avaliado como produto sonoro próprio. Esta trilha se compõe de voz, samplers de voz, e efeitos vários programados – relativamente simples, mas num todo instigante. Os por assim dizer “temas” desta parte oral são a enunciação em si, o jogo som-silêncio, a beleza de arbitrariedades lingüísticas, a esquisitez do discurso neste fim de século. Isto lembra os experimentos do grupo vocal Ars Viva com a poesia concreta nos 50, Araçá Azul de Caetano Veloso (1972), e sobre tudo o tremendo espetáculo multimídia e CD Poesia é Risco , de Augusto de Campos e Cid Campos, com seus arranjos de baixo, sintetizador, e voz.
Os textos e traduções do autor de “pós-tudo” e Balanço de Bossa são, sem dúvida, modelos essenciais para Arnaldo, que admira igualmente Décio Pignatari, Haroldo de Campos, Edgard Braga. A poesia concreta representa uma influência de muito peso na poesia de Arnaldo, mas nela o concreto passa pelo crivo do rock, Laurie Anderson, a arte digital pós-concreta “não-literária”. Nos anos cinqüenta os poetas concretos sonhavam novidades poéticas à altura da tecnologia de comunicação daquelas dias, quando a televisão apenas começava no Brasil. Não conseguiam fazer tudo o que imaginavam por estarem adiantados, ahead of their time. Já Arnaldo nasceu sob outro signo e quando começou a produzir sua arte verbal o computador Macintosh estava à disposição. O presente lançamento segue após os livros Psia e Tudos, o singular livro-CD-vídeo Nome, obra em que ficou eminentemente claro que para o autor o Mac é um dado perfeitamente natural, dado. Trata-se de um graphic designer cantador cujos gestos no palco ou na tela ressoam na leitura também.
As interrelações entre literatura e música popular (a canção) se dão diretamente – em textos musicais com teor poético (veiculados em vivo, LP, CD, impressos) – e biográfica ou generacionalmente, quando compositores e letristas são autores publicados, ou vice-versa. A poesia da canção no Brasil remonta a Gregório de Matos no seiscentos e se manifesta algumas vezes ao longo dos séculos. Para alguns é ponto pacífico o significado poético da geração MPB, dos nascidos em 40. Na geração posterior, o cenário muda, mas há na safra dos nascidos em 60, mormente aculturados pelo rock, um nome mais do que sobressaliente: Arnaldo Antunes. A poesia dele passará o umbral do novo século. A diferença de Chico Buarque ou Caetano Veloso, cujos melhores textos foram compostos como letras de música, a produção de maior densidade poética de Arnaldo tende a aparecer na página (sem que as muitas interrelações da obra dele deixem de ter seu significado particular). Conhecido do grande público jovem pela sua atuação fundamental em um dos mais bem sucedidos conjuntos do rock nacional, Os Titãs, Arnaldo ultimamente tem se afirmado em carreira solo de roqueiro requintado, de performance artist extraordinaire e de poeta cosmopolita. Seus textos são cantados (ou gritados), integram o cenário de apresentações ao vivo, aparecem em festivais de video-arte em museus de arte em vários pontos do hemisfério, ficam colados em paredes de instalações, e são reunidos em volumes como este, caprichosamente produzido na Coleção Signos.
A poesia verbivocovisual do livro começa na capa, com signos multicoloridos, números sobrepostos, letras com variações de tamanho. A palavra “mais”, que não consta do título no frontispício, aparece integrado ao sinal aditivo (de mais) +, e isto sugere tanto a possibilidade de haver algo (extra) meio escondido ao longo do livro, quanto um procedimento construtivo fundamental desta coleção: a simultaneidade. Com efeito, há novas descobertas a cada passo aqui, como no dístico concreto em inglês – the / and – que consegue relativizar tão simplesmente o binômio fim/continuidade. Quanto a leituras simultâneas, considere-se as palavras da peça-título repetidas e espalhadas por duas páginas: “dois ou mais corpos no mesmo espaço não se somam se multiplicam…” Pois é através dessa multiplicidade, de tantas formas realizadas aqui, que este projeto procura e provê satisfações. Se os níveis de tensão verbal podem variar de poema para poema, cada um é atrativo. Tendo bem em mente a confecção computadorizada do livro, adianta asseverar que o segredo do poema, digamos, digital, é relacioná-lo à experiência (mental, comportamental, carnal) da idade digital ou fazê-lo com ironia para com a chamada galáxia gutenberg ou bem com, se permitirem, o “pre-pós-moderno”. Arnaldo Antunes consegue isto com freqüência, e aí reside o sucesso deste novo livro. É uma poesia todo inter-: interativa, interdisciplinar, interferente, internacional, intersemiótico, e interessante, nos melhores sentidos da palavra.


Charles A. Perrone é professor de português e literatura e cultura luso-brasileiras na Universidade da Flórida. É autor de Letras e Letras (da MPB) (1988), Master of Comteporary Brazilian Song: MPB 1965-1985 (1989), Crônicas Brasileiras: Nova Fase (1992, co-organizador), e Seven Faces: Brazilian Poetry since Modernism (1996). (publicou traduções de, entre outros, poemas de Paulo Leminski, Adriano Espínola, Horácio Costa, e Augusto de Campos.